No blog do Ordem Livre, Diogo Costa comentou meu post sobre o salário mínimo (SM). Há um ano atrás, eu diria que era minha a sua posição: contra. Hoje penso diferente, mas não acho que a aplicação do SM deva ser indiscriminada. Responder ao post do Diogo, e agradeço a ele por isso, permitirá que me explique (e até me repita) melhor.

Da mesma forma que algumas condições de segurança e salubridade no trabalho são obrigatórias, algum ou alguns salários mínimos devem existir. São patamares de dignidade nas relações trabalhistas que não podem ser renunciados. Sim, o SM acabará significando “o desemprego das pessoas cuja produtividade não vale, para os empregadores, o pagamento do salário mínimo”. No entanto, o que o Diogo chamou de desemprego, para mim, é impedir a existência de algo muito pior, a servidão contratada.

O Diogo pergunta se o SM é prudente. Bem, é histórico e lucrativo uns escravizarem outros, e só por um imperativo legal, criado por força de uma demanda moral na sociedade, não o fazem mais. Se a escravidão é economicamente racional, o SM parece-me, sim, bastante prudente. Se acho que um adulto ficar 8 horas por dia, todos os dias, à disposição de alguém, ganhando menos que R$ 300 mensais, se caracteriza como uma espécie de escravidão, isso deve ser proibido. Diante de todos os avanços ocorridos nos últimos cem anos, estou simplesmente levando esse raciocínico a sua conseqüência mais natural.

Reconheço a complexidade de declararmos se um determinado vínculo empregatício é abusivo. Fica ainda mais complicado se lembrarmos que quem decidirá isso será o Severino, o Sivuca, a Benedita, o Bittar, o Garotinho, o Pudim… Mas alguns casos são mais óbvios, como os de meninos trabalhando em carvoeiras, mesmo com a permissão dos pais. Ao proibir que essa atividade seja exercida por crianças, muitos ficarão desempregados, a renda de várias famílias será menor, mas minha posição é inamovível. Outros casos e condições trabalhistas não são fáceis de lidar, tais como as possíveis aplicações do SM que estamos analisando aqui: o poder de compra muda de estado para estado; há ofícios e ofícios; não fervemos todos à mesma temperatura.

Numa democracia, tal como o ato de decidir se a maioridade começa aos 18 ou 16 anos, as leis simplesmente vão sendo elaboradas com a evolução dos tempos e da (im)prudência dos nossos representantes. Determinações legais são positivadas no tato mesmo, infelizmente fazemos isso com a mão pesada. Ainda assim, isso nunca foi desculpa para nos esquivarmos de tentar. Alguns encararão o salário como apenas o preço de serviços prestados que duas pessoas acordam entre si. No entanto, é mais do que isso. Não se pode negociar uma inescapável relação de hierarquia entre homens como se compra uma penteadeira. É querer esvaziar muito a humanidade dos nossos atos de interação.