… quando as regras ortográficas de seu país passam pela caneta de um semi-analfabeto.

Manchete: Lula assina hoje decreto sobre Acordo Ortográfico

Trecho: “Será durante sessão solene de celebração dos 100 anos de morte de Machado de Assis.”

A única coisa solene é que estão dando de ombros solenemente ao bom senso. E ainda fazem questão de empenhar o nome de nosso escritor maior.

ATUALIZAÇÃO:

Lembrei que havia escrito este artigo para O DIA: Língua por decreto

O gajo J.P. Coutinho também está convicto do erro desse mastodonte gramatical (só para assinantes):

Acordo ortográfico? Não, obrigado. Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra. Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dono de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra.

(…)

Lamento. Eu gosto do “c” do “actor”, do “p” de “cepticismo”. Eles representam um património, uma história. Uma pegada etimológica que faz parte de uma identidade cultural. Mas o “c” e o “p” não são apenas antiguidades de uma ortografia; como relembrou recentemente o poeta português Vasco Graça Moura, esses “c” e “p” abrem a vogal que os antecede e fornecem informação para pronunciar correctamente as palavras. Acordo ortográfico? O gesto é prepotente e apedeuta. Aceitar essa aberração filosófica e linguística, impensável para ingleses (ou franceses), significa apenas que a irmandade entre Portugal e o Brasil continua a ser a irmandade do atraso.