… quando as regras ortográficas de seu país passam pela caneta de um semi-analfabeto.
Manchete: Lula assina hoje decreto sobre Acordo Ortográfico
Trecho: “Será durante sessão solene de celebração dos 100 anos de morte de Machado de Assis.”
A única coisa solene é que estão dando de ombros solenemente ao bom senso. E ainda fazem questão de empenhar o nome de nosso escritor maior.
ATUALIZAÇÃO:
Lembrei que havia escrito este artigo para O DIA: Língua por decreto
O gajo J.P. Coutinho também está convicto do erro desse mastodonte gramatical (só para assinantes):
Acordo ortográfico? Não, obrigado. Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra. Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dono de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra.
(…)
Lamento. Eu gosto do “c” do “actor”, do “p” de “cepticismo”. Eles representam um património, uma história. Uma pegada etimológica que faz parte de uma identidade cultural. Mas o “c” e o “p” não são apenas antiguidades de uma ortografia; como relembrou recentemente o poeta português Vasco Graça Moura, esses “c” e “p” abrem a vogal que os antecede e fornecem informação para pronunciar correctamente as palavras. Acordo ortográfico? O gesto é prepotente e apedeuta. Aceitar essa aberração filosófica e linguística, impensável para ingleses (ou franceses), significa apenas que a irmandade entre Portugal e o Brasil continua a ser a irmandade do atraso.
4 comments
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Setembro 30, 2008 às 6:43 pm
Carlos Eduardo de Abreu e Lima
Caríssimo Igor,
Como revisor de profissão, também acho uma esquisitice esta reforma ortográfica. Aliás, foi sintomático ver na TV onrtem à noite, o “escritor” e “imortal” José Sarney defendendo-a.
Outubro 1, 2008 às 7:36 am
dissidente «
[...] Frente à prepotência dos políticos, cabe-me ser um pequeno foco de resistência. Com todas as minhas limitações, este espaço continuará sendo escrito em português pátrio. Se você (professor, editor, escritor, jornalista ou amante de nossa verdadeira língua) também repudia o Acordo Ortográfico perpetrado por burocratas incapazes de entender o que vem a ser um idioma, coloque também o selo ao lado.Aos amigos lusitanos que repelem esse Frankenstein lingüístico com o mesmo desgosto, A Mosca Azul disponibiliza uma versão à portuguesa. (leia +) [...]
Outubro 1, 2008 às 12:05 pm
Igor T.
Grande Eduardo,
A medida é lamentável. Manter-me-ei fiel a nossa língua, não quero nem saber das bizarrias deste governo.
Fevereiro 6, 2009 às 7:29 pm
André Mello
O nome apropriado para a medida é “acordo da inconseqüência” (tremam diante do trema); como em outras leis deste país que permanece “um deserto de homens e de idéias”, vota-se a transformação do vernáculo, já que é mais difícil educar as massas para que sejam livres. Assim, aqueles que já não sabiam escrever, orgulham-se de dizer que, a partir de agora, ninguém mais sabe. Aliás, vale perguntar: essa medida ditatorial não deveria ter sido votada em plebiscito? Afinal, a caneta continua sendo uma arma afiada, não?
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