Meu nome é Igor Taam, já escrevi em alguns blógues anteriormente. O primeiro, Labareda, foi uma parceria com um amigo meu, Carlos Eduardo; o segundo, O Espectador, pela freqüência, fez-me perceber que nome é destino - estava condenado a ser um voyeur solitário de meus próprios escritos; o terceiro, Write in Water, secou. Devo ter alguma doença que me faz abrir e fechar blógues constantemente.

Desde que despontaram os primeiros sites direitistas brasileiros, também me meti a escrever e a traduzir artigos para mídia conservadora-neoliberal-malvadona. Meus primeiros textos foram para o extinto offmidia.com e o Mídia Sem Máscara, que se tornou rapidamente o Mídia Sem Alça. Aliás, tive parte nisso. Depois, surgiu o Instituto Millenium, onde até hoje contribuo com o maior prazer. Vez por outra, tenho conseguido espaço em outros jornais (Gazeta de Varginha, O Dia, etc). Não é meu ganha-pão, mas acho que faço bem o que proponho: ser cri-cri quando todos resolveram fazer o papel do bobo de cara alegre (copyright São Paulo, o Apóstolo).

Hoje edito semanalmente o Dicionário Invertebrado e este blógue. Ambos, à Unamuno, um tanto quixotescos num mundo de Sanchos Panças.  

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A Mosca Azul é o nome de um dos poemas mais citados de Machado de Assis. Talvez o melhor. Nas palavras do historiador e crítico Alfredo Bosi, “um permanente alerta para que nada de piegas, nada de enfático, nada de idealizante se pusesse entre o criador e as criaturas”. Sem mais, ei-lo:

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.