Trechos selecionados de Problemas del cristianismo,
de Julián Marías.

tradução: Diva de Toledo Pisa
recorte: Igor Taam

O núcleo da questão é, a meu ver, que o cristianismo tende a não funcionar como religião e sim como outras coisas que também é (ou pode ser): moral, ideologia, interpretação da realidade, princípio de convivência, fundamento de uma sociedade, instrumento de poder (…) Com enorme freqüência se perde a perspectiva justa da fé. Por certo, não se a descarta; apenas se a desvirtua. Mantém-se uma crença “nominal” em Deus, sem deter-se nele, sem “plenitude significativa”, poderíamos dizer. É tomado como “ponto de partida” para ir a outras coisas que, de verdade, são as que interessam.

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Também não se pode “partir” de Deus e sim nele permanecer. Quero dizer que, religiosamente, Deus interessa por si mesmo. E é isto o que parece estar desaparecendo.

De maneira incrível se debilitou a consciência de mistério, a admiração – no grau sumo, que se chama adoração – por sua grandeza, sua bondade, seu supremo valor.

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É curioso como desapareceu o que foi o torso da fé cristã: a gratidão a Deus criador (…) Mais um passo é a vagueza da visão de Deus como Pai – núcleo essencial do cristianismo (…) E quando se prega a fraternidade entre os homens, costuma-se esquecer seu fundamento, a paternidade divina, nossa filiação comum em relação a Ele; sem ela, por que somos irmãos?

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E não digamos o que acontece com o significado religioso da Trindade, tão absolutamente obscurecido, do qual nada resta além da menção nominal da Três Pessoas.

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Restará algo da vida religiosa atual, inclusive na eclesiástica, da Trindade como tal? Ela é vivida religiosamente pelos nossos contemporâneos? É proposta e ensinada eficazmente? Pelo menos se leva em conta, ainda que em forma misteriosa, o que pode ser vida divina? Talvez se descarte tudo isto precisamente por ser “misterioso”; ecoa o famoso título de John Toland, o deísta, “Christianity not mysterious”. Porém o cristianismo é misterioso, e é realidade sem mais.

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Procura-se o sentido positivo da moral cristã? Quando visto como código ou regulamento de polícia, quando se entende o Decálogo como uma lista de proibições, não se entende nada. Gostaria de saber quantos cristãos pensaram um pouco a sério que nenhum dos mandamentos tem sentido sem referência ao primeiro, que a fonte de todos eles é o amor de Deus; de maneira que se essa referência falta, os preceitos deixam de ser religiosos; o homem que não o é, o que, mesmo o sendo, não vivifica os nove mandamentos restantes a partir do primeiro, não “falta” a eles, mas certamente não os cumpre.

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Há duas atitudes inaceitáveis, e muito freqüentes, uma no passado, a outra em nossos dias: a primeira é desatender esta vida em nome de outra, fiar tudo à salvação e à justiça divina, abandonar religiosamente este mundo; a segunda, esquecer essa salvação e essa justiça para propor os problemas deste mundo isolados e por si mesmos. Nenhuma destas atitudes é religiosa, pelo menos não é cristã; a religião tem que informar esta vida por sua referência à outra.

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A injustiça mais atroz que se pode cometer com um homem é despoja-lo de sua esperança. Lasciate ogni speranza – é o dístico à porta do Inferno de Dante. (…) Sempre me comoveram esses homens ou mulheres que ao final do que para eles pode chamar-se vida – “isto não é vida, isto não é viver”, dizemos muitas vezes ainda que estejamos tão vivos que estejamos em carne viva –, rezam na Igreja e aproximam-se do altar para receber uma comunhão que no antigo rito lembrava a promessa de vida eterna; isto é, a esperança.

Hoje são muitos os que se dedicam a minar essa esperança, a destruí-la ou pelo menos faze-la esquecer. O grave é que às vezes o fazem em nome da “justiça social”, cometendo a mais aterradora injustiça que posso imaginar. Quando alguém não espera a outra vida, qual é a sua situação se esta só oferece infelicidade?

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Quando vejo tantos homens e mulheres, próximos ao final de suas vidas, ou quando estas temporalmente, deixaram de lhes oferecer a possibilidade de serem felizes, seria aterrador sentir-me responsável de haver contribuído para tirar-lhes a esperança e o sentido de sua dolente humanidade.

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Os cristãos falam, com muita freqüência, da “iluminação da fé”; porém, sem leva-la a sério, uma vez que não aceitam que os que não estão iluminados por ela não vejam algumas coisas que para eles cristãos, graças a essa iluminação precisamente, estão muito claras. O cristão, se for sincero e veraz, diante de uma questão qualquer deve perguntar a si mesmo: se eu não fosse cristão o veria assim? E inversamente: estou vendo isso de uma perspectiva cristã tendo em conta o que o cristianismo desvela?

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Lembro os dois livros famosos, de mais ou menos um século e meio, Historie de la civilisation en Europe, de Guizot, e El protestantismo comparado con el catolicismo en sus relaciones con la civilización, a resposta de Balmes. Guizot, protestante, sustentava que o protestantismo foi mais favorável à cultura e civilização; Balmes opinava o contrário. Unamuno, creio eu mais cristãmente que os dois, diria que um século depois que a questão não tinha interesse maior, porque a missão da religião não é favorecer a civilização (eu acrescentaria: nem a economia, nem a política), e sim santificar-nos e salvar-nos. Se, além disso, favorece a civilização, melhor; mas não é isso o importante, não é isso que se deve lhe pedir. Essas disciplinas são coisas excelente e interessante, e absolutamente necessárias; a religião é outra coisa.